Littlee tales é um blog com pequenos contos, criado como válvula de escape para minha vontade de escrever aliada a minha falta de tempo de compor histórias maiores e mais complexas. Deixe um comentário, seja ele crítica, sugestão ou elogio.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O balanço


O menino veio correndo. Alegria maior para ele era chegar na casa do avô e correr pro balanço. Era feito de pneu, pendurando em um limoeiro, já em idade avançada, por uma corda velha azul.
Montou tantas vezes no balanço que perdeu a conta e quando balançava sentia o sabor do vento e o cheiro de limão, enquanto o velho limoeiro derramava folhas ao seu redor. O velho pneu pendurado na corda foi cavalo, foi barco, foi carro, foi tudo o que o menino podia imaginar que fosse.
Podia passar horas se balançando, vivendo um mundo de aventuras em um metro quadrado de chão, sem se importar com o frio, o calor ou ainda a hora do almoço.
Mas um dia, cortaram o limoeiro...

Cavaleiro


O sol estava a pino, entrara na batalha pela manhã e seus braços já quase não aguentavam o peso da lâmina em suas mãos. Encontrou um inimigo em meio ao caos, olhou em seus olhos pela fresta do elmo. Lançou-se.
Esquerda, direita, frente, alto, cada estocada era aparada pela espada do cavaleiro. O pobre coitado estava assustado com sua fúria, mas mesmo assim não se deixava abater. Mas o inimigo tropeçou em um corpo no chão, e o flanco esquerdo se abriu, foi o suficiente para que sua espada entrasse. Avassaladora, pesou sobre o inimigo misturando sangue, aço e carne pescoço a dentro.
Não teve tempo de saborear a pequena vitória, muito menos de respirar. Pela direita viu o golpe se aproximando, lançou o escudo na direção da espada teve o mesmo destroçado enquanto rolava pela lama devido ao poder do golpe.
Levantou os olhos desnorteado, viu o cavaleiro se aproximando com a espada de duas mãos em sentido de ataque. Pôs-se em pé rapidamente, parando a próxima estocada, e a próxima e a próxima. Muito mais experiente que o cavaleiro assustado, o cavaleiro inimigo tinha o dobro de seu tamanho e a dança se iniciou, avança, recua, defende, ataca, retorna a avançar, enquanto um calor infernal o cozinha dentro da armadura.
 - Vem almoçar João!
 - Só mais um pouco mãe!
 - Vem agora que a comida já esta na mesa!
Deixou cair o galho seco enquanto se afastava da laranjeira do quintal.

Salto



Suas pernas balançavam no vazio, podia ver as luzes dos carros passando lá embaixo. A alvora estava chegando lentamente e a grande cidade acordava aos poucos.
 - Eu não acredito que ele fez isso comigo... - havia encontrado o ex-namorado na cama com sua melhor amiga e a lembrança da imagem ainda estava fresca na cabeça.
 - Eu confiava nele...e nela...são uns falsos! - balbuciava devagar com lágrimas nos olhos.
Criou coragem, respirou fundo, pôs-se em pé, olhou para o alto.
- Não há mais nada aqui para mim...- lançou o corpo para frente, sentiu seus pés perdendo o chão e seu corpo sendo puxado pra baixo.
Arrependeu-se no momento em que estendia os braços para frente, tentando se agarrar algo que não estava lá. Havia mais homens no mundo, e muitos melhores que o ex-namorado com certeza, não devia ter se jogado, estava errada, a vida podia lhe trazer um outro amor.
O chão se aproximava, não, ela pensou, fiz o certo, não quero viver no mesmo mundo que aquela falsa. Não acredito que ela foi capaz de uma coisa daquelas, era uma nojenta. Deixou a gravidade fazer seu trabalho sem se importar.
Arrependeu-se, mas, e sua mãe? Como foi fazer uma coisa destas com sua família? O que o seu pai diria quando lhe contassem o que fez? Era com certeza uma covarde que fugiu da vida sem olhar pra trás. Como reagiria seu irmão mais novo? Que exemplo ela estava deixando para o pobre coitado...
O chão se aproximava, sei que ficarão bem, e além do mais, a vida é minha e eu faço o que quiser dela. A mãe iria chorar e o pai repreender mas teriam de aceitar sua decisão. E o irmão? Pois o irmão que crescesse porque o mundo não era um mar de rosas.
Arrependeu-se, ainda tinha uma vida inteira pela frente, e surpresas demais para que desse fim a tudo por uma decepção amorosa. Afinal de contas, quem nuca teve uma decepção amorosa? Casais se desmancham o tempo todo e nem por isso as pessoas pulam de prédios.
O chão se aproximava, meu Deus, ela pensou, eu devia ter usado uma arma...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Carnaval


    - Me chamo Bruno!
    - Olá, sou Sandra!
A música era alta, noite de carnaval com as ruas lotadas de gente.
    - Seu sorriso é lindo!
    - Obrigada, o seu também!
O rapaz moreno com olhos de amêndoa estava olhando pra ela fazia algum tempo antes de se aproximar, e Sandra estava feliz por ele ter tomado coragem de vir falar com ela. O rapaz a enlaçou, ela sorriu, ele a beijou e ela se sentiu no céu.
    - Vem, conheço um lugar!
    - Pra onde nós vamos?
    - Vem comigo! Me criei nestas vielas, conheço tudo por aqui, pode ficar tranquila!
Sandra deixou que o rapaz a conduzisse em meio à multidão, sorrisos, alegria, pessoas dançavam e pulavam em todos os lugares. Deixou conduzir-se através de ruas e vielas pelo moço sorridente até que encontraram um lugar longe da multidão.
Beijaram-se. Ela ouviu o rapaz começar a assobiar uma marchinha de carnaval, abraçou apertado seu corpo, a felicidade era tanta que doía seu estomago, quando o rapaz afastou devagar, sua blusa estava úmida e a dor aumentara, ao passar a mão pela umidade viu a vermelhidão.
Tentou gritar, mas a garganta fechou-se de terror. Caiu sobre os joelhos enquanto tentava olhar pro rosto do rapaz, não havia sorriso, apenas a calma enquanto juntava os pertences dela. A câmera fotográfica, a carteira, seu relógio, os brincos e o celular. Sentia seu sangue deixando seu corpo devagar enquanto as forças se acabavam. O rapaz não olhou pra trás enquanto se afastava. Seu olhos foram fechando conforme o rapaz se afastava, ainda podia ouvir o som da marchinha que ele assobiava.

A caminhada


    Frio, era sempre frio aquela hora da manhã. Enquanto caminha pela rua deserta e escura lembrava das fantasias de criança, um cavaleiro, um pirata, um mago...
Frio, agarrou-se aos próprios braços enquanto a aurora subia devagar. Sozinho, enquanto caminhava ouvia os sons do amanhecer, uma sinfonia leve e de poucas notas que dali a algumas horas teria seu auge.
Frio, o sol nasceu tocando as pontas das árvores. Sentia-se feliz por ver a luz, parecia que caminhou horas pela escuridão até que o primeiro raio surgisse. Sorriu e seguiu seu caminho.