Littlee tales é um blog com pequenos contos, criado como válvula de escape para minha vontade de escrever aliada a minha falta de tempo de compor histórias maiores e mais complexas. Deixe um comentário, seja ele crítica, sugestão ou elogio.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O velho



Sentou na porta da casa, pegou a faca, o fumo, começou a preparar o cachimbo. Descendo a estrada vinha um homem de roupas velhas e chapéu de palha com uma enxada nas costas assoviava enquanto seus passos levantavam pequenas nuvens de poeira.
- Boa tarde compadre - falou o homem pondo a enxada no chão.
- Boa tarde. - respondeu-lhe soltando a fumaça do cachimbo.
- Será que chove?
- Não sei compadre, mas se não chover hoje, chove amanhã.
- Vai ser bom pra plantação. - respondeu o homem recolocando a enxada sobre as costas. - Então até amanhã compadre.
- Até. - lhe disse entrando em casa.
E o homem seguiu seu caminho pela estrada voltando a assoviar enquanto seus passos levantavam pequenas nuvens de poeira.

Prisão



Acordou, olhando para o teto, respirou fundo, sentou-se na cama. As paredes eram brancas, mas sujas, e o chão era úmido e mal cheiroso. Olhou para o lado e viu a claridade passando entre as grades da janela e banhando a cela. Seu colega, se chamava João, mas todos o chamavam Pontinha pois havia perdido a ponta de um dos dedos da mão, ninguém sabia como e o homem contava uma história diferente sempre que perguntavam sobre a ponta do dedo.
Levantou-se, mas não tinha para onde ir, deitou-se, mas não havia sono. Soou o sinal do pátio, as celas foram abertas e caminhou entre os outros até o sol. O sol erguia-se quente, mas era disso que ele gostava, que a luz banhasse todo o seu corpo. Se aproximou de um grupo onde jogavam dados, observou durante algum tempo enquanto eles se divertiam.
Soou o sinal para o almoço, caminhou novamente entre os outros, foi servido com algo que não saberia dizer o que era, sentou-se, comeu. Voltou a cela onde encontrou Pontinha comendo uma maçã, não costumavam se falar muito, Pontinha lhe sorriu com os dentes sujos da fruta.
Abriu um velho livro que havia pego na biblioteca, histórias policiais, uma grande ironia ele pensou. Foleou boas páginas até que percebeu que a claridade entre as grades da janela diminuíram, largou o livro ao lado da cama, pegou um pedaço de arame escondido sobre o colchão, sentou-se na cama ouvindo o respirar do colega adormecido. Ergueu o arame devagar e fez um risco na parede, recolocou o arame em seu lugar sobre o colchão e repousou o corpo na cama. Menos um dia, ele pensou, menos um dia.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

No quarto



O quarto estava escuro. Seu coração estava acelerado, olhou para os lados, mas a escuridão não lhe deixava enxergar nada na sua frente. Puxou a coberta até a altura dos olhos, e encolheu as pernas devagar.
Não sabia dizer quanto tempo havia passado desde que sua mãe apagara a luz e lhe dera boa noite, uma hora, duas, talvez quinze minutos. A agonia e o medo tornavam cada segundo uma eternidade. Ouviu um barulho, terá sido a imaginação, pensou, ou alguma coisa se moveu no chão do quarto?
Uma barata ou um rato, deve ter sido isto, ou qualquer outro inseto, sem motivos para maiores preocupações. Outro estalido, tremeu, teve certeza que havia algo no quarto, barulhos sem explicação começaram a surgir pelo quarto todo. Respirou fundo, tinha visto na televisão que a madeira estalava durante a moite, devia ser isto.
Sentiu a cama balançar, e o coração quase saltou pela boca. Jogou a coberta por cima da cabeça, encolheu o máximo as pernas e desatou a rezar. O calor embaixo da coberta era insuportável mas não podia arriscar-se a sair, sabe-se lá o que poderia estar a espera ao lado da cama.
Por fim, o sono lhe venceu...

A travessia



- Você não consegue! - disse-lhe o amigo lançando o desafio.
- É claro que eu consigo, se eu quisesse...
- Então eu aposto como não consegue!
- Apostamos o que?
- Eu jogo meu saco de bolinhas como você volta antes da metade.
- Feito, as minhas contra as suas que eu atravesso. - escondeu o medo enquanto caminhava para a margem.
O dia estava quente e ele e os amigos haviam combinado de tomar um banho no rio durante à tarde, mas choveu no dia anterior e o rio estava demasiado cheio. Pôs o primeiro pé na água, despiu a camisa e jogou na direção dos amigos, mergulhou.
Emergiu depois de alguns segundos estourando em braçadas, no alto de seus 15 anos não lhe faltava vigor, mas lhe faltava sabedoria. A chuva do dia anterior havia deixado o rio, antes lento e calmo, em um curso d'água violento.
Uma braçada, depois outra, a ideia agora lhe parecia idiota, por que aceitou um desafio bobo daqueles, devia ter desafiado de volta e não ter se jogado no rio. Os braços pareciam prestes a se soltar dos ombros com a força que tinha de fazer para vencer centímetro à centímetro a correnteza do rio. O fôlego foi se tornando fraco, a as braçadas ineficientes enquanto ele pensava, só mais uma, só mais uma. Desistiu, e deixou o corpo afundar...
Seus pés tocaram o chão, se pôs de pé com água pela cintura. Olhou pra outra margem e viu os outros gritando e rindo, havia conseguido, mas estava tonto pelo esforço.
- Volta! - gritou o autor do desafio - Você venceu!
- Eu vou pela ponte!
- Mas fica à um quilômetro!
Se levantou, já um pouco recuperado, e começou a caminhada. Podiam ser trinta quilômetros  ele pensou, não volto nadando...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O balanço


O menino veio correndo. Alegria maior para ele era chegar na casa do avô e correr pro balanço. Era feito de pneu, pendurando em um limoeiro, já em idade avançada, por uma corda velha azul.
Montou tantas vezes no balanço que perdeu a conta e quando balançava sentia o sabor do vento e o cheiro de limão, enquanto o velho limoeiro derramava folhas ao seu redor. O velho pneu pendurado na corda foi cavalo, foi barco, foi carro, foi tudo o que o menino podia imaginar que fosse.
Podia passar horas se balançando, vivendo um mundo de aventuras em um metro quadrado de chão, sem se importar com o frio, o calor ou ainda a hora do almoço.
Mas um dia, cortaram o limoeiro...

Cavaleiro


O sol estava a pino, entrara na batalha pela manhã e seus braços já quase não aguentavam o peso da lâmina em suas mãos. Encontrou um inimigo em meio ao caos, olhou em seus olhos pela fresta do elmo. Lançou-se.
Esquerda, direita, frente, alto, cada estocada era aparada pela espada do cavaleiro. O pobre coitado estava assustado com sua fúria, mas mesmo assim não se deixava abater. Mas o inimigo tropeçou em um corpo no chão, e o flanco esquerdo se abriu, foi o suficiente para que sua espada entrasse. Avassaladora, pesou sobre o inimigo misturando sangue, aço e carne pescoço a dentro.
Não teve tempo de saborear a pequena vitória, muito menos de respirar. Pela direita viu o golpe se aproximando, lançou o escudo na direção da espada teve o mesmo destroçado enquanto rolava pela lama devido ao poder do golpe.
Levantou os olhos desnorteado, viu o cavaleiro se aproximando com a espada de duas mãos em sentido de ataque. Pôs-se em pé rapidamente, parando a próxima estocada, e a próxima e a próxima. Muito mais experiente que o cavaleiro assustado, o cavaleiro inimigo tinha o dobro de seu tamanho e a dança se iniciou, avança, recua, defende, ataca, retorna a avançar, enquanto um calor infernal o cozinha dentro da armadura.
 - Vem almoçar João!
 - Só mais um pouco mãe!
 - Vem agora que a comida já esta na mesa!
Deixou cair o galho seco enquanto se afastava da laranjeira do quintal.

Salto



Suas pernas balançavam no vazio, podia ver as luzes dos carros passando lá embaixo. A alvora estava chegando lentamente e a grande cidade acordava aos poucos.
 - Eu não acredito que ele fez isso comigo... - havia encontrado o ex-namorado na cama com sua melhor amiga e a lembrança da imagem ainda estava fresca na cabeça.
 - Eu confiava nele...e nela...são uns falsos! - balbuciava devagar com lágrimas nos olhos.
Criou coragem, respirou fundo, pôs-se em pé, olhou para o alto.
- Não há mais nada aqui para mim...- lançou o corpo para frente, sentiu seus pés perdendo o chão e seu corpo sendo puxado pra baixo.
Arrependeu-se no momento em que estendia os braços para frente, tentando se agarrar algo que não estava lá. Havia mais homens no mundo, e muitos melhores que o ex-namorado com certeza, não devia ter se jogado, estava errada, a vida podia lhe trazer um outro amor.
O chão se aproximava, não, ela pensou, fiz o certo, não quero viver no mesmo mundo que aquela falsa. Não acredito que ela foi capaz de uma coisa daquelas, era uma nojenta. Deixou a gravidade fazer seu trabalho sem se importar.
Arrependeu-se, mas, e sua mãe? Como foi fazer uma coisa destas com sua família? O que o seu pai diria quando lhe contassem o que fez? Era com certeza uma covarde que fugiu da vida sem olhar pra trás. Como reagiria seu irmão mais novo? Que exemplo ela estava deixando para o pobre coitado...
O chão se aproximava, sei que ficarão bem, e além do mais, a vida é minha e eu faço o que quiser dela. A mãe iria chorar e o pai repreender mas teriam de aceitar sua decisão. E o irmão? Pois o irmão que crescesse porque o mundo não era um mar de rosas.
Arrependeu-se, ainda tinha uma vida inteira pela frente, e surpresas demais para que desse fim a tudo por uma decepção amorosa. Afinal de contas, quem nuca teve uma decepção amorosa? Casais se desmancham o tempo todo e nem por isso as pessoas pulam de prédios.
O chão se aproximava, meu Deus, ela pensou, eu devia ter usado uma arma...